Entrevista com Carlos Molinari

Carlos Molinari nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de setembro de 1979, no bairro de Bangu. Talvez por isso, fiel às minhas origens, se tornou banguense de coração. Fez seu curso superior na UFRJ e logo em seguida, aos 22 anos, deixou sua cidade para trabalhar em Brasília na TV Nacional, após ser aprovado em concurso público.

Foto de Carlos Molinari

Foto de Carlos Molinari

Trabalhou no Tribuna do Brasil, em Brasília, como jornalista esportivo entre 2004 e 2006, e como colaborador no site Esporte Candango.

Mantém desde 2000, um site histórico – que acabou virando uma agência de notícias – sobre o Bangu Atlético Clube, chamado http://www.bangu.net – que tem 2.000 acessos diários.

Tem três livros escritos: um sobre a história das Copas, publicado em 1998, quando tinha 18 anos e outros dois sobre o Bangu Atlético Clube: “Nós é que somos banguenses” e “Almanaque do Bangu”.

Confira uma entrevista exclusiva com Carlos Molinari a seguir:

Telesporte:  Molinari Qual a importância do telejornalismo esportivo para você?

Entrevistado: Um noticiário de televisão não pode e não deve ficar restrito à notícias de política e economia. A maior emissora do país, a TV Globo, já percebeu isso há muito tempo e sempre destaca os blocos finais do Jornal Nacional para notícias esportivas. Além disso, toda emissora privada reserva sempre um horário para um programa diário de assuntos esportivos. Mais ainda, emissoras que têm sua grade de programação menos preenchida, aproveitam o domingo à noite para criar um programa do tipo “mesa redonda”.

Tivemos um exemplo claro de como uma emissora ou uma programação fica cansativa se não há o noticiário esportivo em seu conteúdo, em sua grade. A TV Nacional, na época sob a gestão do presidente Eugênio Bucci, proibiu entre 2003 e 2006 toda e qualquer reportagem sobre esportes, futebol. Segundo ele, apenas assuntos de interesse do “cidadão” poderiam ser veiculados. Resumindo: vivemos uma censura total e absoluta ao lúdico, ao entretenimento e quem assistia somente a TV Nacional nesse período deve ter tido a sensação única de que os esportes não existiam no nosso país.

Telesporte:  O que mais te chama a atenção no jornalismo esportivo?

Entrevistado: A falta de conhecimento dos que tratam da matéria. Os palpiteiros de plantão, os conhecedores de última hora, os que dizem que entendem, e quando abrem a boca, fazem uma confusão histórica absurda, mostrando não ter o conteúdo necessário. Isso me chama muito a atenção, porque parece descabido uma TV abrir espaço para tanta gente que não conhece sequer a história dos esportes.

Telesporte:  Fale um pouco sobre os programas esportivos antigos.

Entrevistado:  Conheço, dentre os mais antigos, embora nunca tenha visto, a Resenha Esportiva Facit, que acontecia na década de 60 na TV Globo. Entre os participantes tínhamos um heróico, um sensacional Nelson Rodrigues. Ter um gênio do teatro entre os participantes de uma resenha esportiva era algo absurdo, mas que funcionava. Nelson sempre ia ao Maracanã, mas ruim das vistas, não distinguia direito os lances. Nelson tem uma história genial. Defensor ardoroso do Fluminense, certa vez, disse no ar que um pênalti contra o Fluminense não havia existido. Daí, passou o video-tape do lance para que todos pudessem ver se houve ou não o pênalti. Fora pênalti, claríssimo, tanto até que o juiz marcou. A câmera se volta para Nelson, que foi enfático: “Não posso fazer nada. O video-tape é burro!”.

Nesse mesmo programa, João Saldanha – folclórico botafoguense e técnico da Seleção Brasileira – acusava o dirigente banguense Castor de Andrade de comprar jogadores dos outros times para que eles amolecessem o jogo, inclusive o goleiro Manga, do Botafogo. Em casa, vendo aquilo, Castor tomou uma decisão, pegou o seu carro e desembarcou nos estádios da Globo com arma na mão. Na época, o programa era ao vivo. Imagine o desespero dos participantes da mesa redonda na hora que Castor entrou nos estúdios de arma em punho. Todo mundo saiu correndo, menos João Saldanha. Foi preciso chamar os comerciais. Isso foi em 1967.Cenas absurdas, que merecíamos ver de novo.

Telesporte:  Algum fato ou algo em especial marcou você em relação ao telejornalismo esportivo no Brasil?

Entrevistado:  As grandes coberturas de Olimpíadas e Copa do Mundo sempre me marcam muito. Lembro detalhamente da cobertura da TV Globo na Copa do Mundo do México, em 1986. Lembro muito da participação olímpica de Seul 1988 para cá. Ver, da sua casa, uma festa mundial do esporte como esses dois eventos, é um privilégio absurdo. Melhor, só no estádio.

Telesporte:  Como você vê a evolução no telejornalismo esportivo?

Entrevistado:  As TVs por assinatura, como Sportv e ESPN Brasil, vieram enriquecer o telejornalismo esportivo. Ter dois canais 24 horas passando somente esporte é algo maravilhoso. Eles realizam muitos documentários excelentes, bem pesquisados, possuem boas mesas redondas, exibem vários jogos. Ali, o esporte achou o espaço que merecia na TV brasileira.

Telesporte: Qual a sua opinião a respeito dos programas esportivos atuais?

Entrevistado:  Particularmente, os programas de esporte da TV aberta não são os melhores. Vejamos o exemplo da TV Globo: o Globo Esporte é pequeno demais, curtinho; o Esporte Espetacular é grande demais, alongado, matérias cansativas sobre esportes muito alternativos. Vejamos o exemplo da TV Bandeirantes: excessivamente paulista, preocupando-se apenas com os times de lá.

Respeito, no entanto, programas como o Loucos por Futebol, da ESPN Brasil, que traz excelentes matérias sobre aficionados, livros, objetos antigos. Em geral, os programas mostram jornalistas esportivos que estão no ar há 100 anos e que conhecem pouco da matéria, infelizmente.

Telesporte: Conte algum fato curioso que você tenha passado ou que tenha ficado sabendo do jornalismo esportivo da TV brasileira.

Entrevistado: Falemos de Nilson Nelson, o maior jornalista esportivo que Brasília jamais produziu. O gaúcho foi um pioneiro do esporte na TV Nacional, além de trabalhar na Rádio Nacional e em jornais impressos. Fazia de tudo, narrava tudo, de futebol a automobilismo, de vôlei a corridas de cavalo. Quem vê sua imagem no ar, no entanto, fica surpreso. Falecido em 1987, Nilson Nelson exibia um incomum bigodão que praticamente tampava sua boca. O adereço tem explicação: mesmo conhecido nacionalmente, Nilson Nelson não era um sujeito vaidoso, e tinha seus dentes da frente apodrecidos. Por isso, o bigode para disfarçar, mesmo ficando estranhíssimo no ar.

Corria o boato também que o famoso narrador apanhava da esposa, uma delegada da Polícia Federal, que caçava o jornalista em diversos lugares, zelosa para evitar que seu marido aprontasse alguma.

Telesporte:  Como você enxerga o futuro do jornalismo esportivo no Brasil?

Entrevistado:  Não irá mudar tanto assim, apesar das novas tecnologias, da TV digital, etc. Teremos ainda os radialistas, os programas de rádio, o jornal impresso, as narrações de “geladão” ou “off-tube”, como gosta de chamar a Globo, os programas de mesa redonda e muito papo furado, as transmissões ao vivo. O que me assusta é o preço que as entidades internacionais e até mesmo uma CBF cobram para as TVs transmitirem o espetáculo. COI, FIFA e CBF descobriram que possuem um ótimo produto, que dá audiência, e transformam isso em um leilão especulativo, onde só as grandes redes podem ter acesso.

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